Lekondo:
Ontologia de Estéticas de Moda

34 estéticas

Roupa é expressão sem explicação. Ela influencia como você é visto e como se vê. Padrões de gosto, humor, disciplina, excesso e restrição se repetem através do tempo e da cultura. Este é o nosso guia para tornar essa linguagem visível.

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Wabi-sabi

Definição

O Wabi-sabi é uma filosofia estética japonesa com raízes no Budismo Zen. Ela encontra beleza na impermanência. Valoriza o imperfeito e o incompleto. O conceito remete à cerimônia do chá do século XV cultivada por Sen no Rikyu. Ele preferia tigelas de chá raku rústicas a peças polidas importadas da China. Na moda, o wabi-sabi descreve roupas que priorizam a textura natural. O foco recai sobre a assimetria e o envelhecimento visível. Os designers Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo levaram essa lógica para o cenário internacional em 1981. Eles apresentaram em Paris peças com barras irregulares e costuras expostas. A estética também utiliza tradições têxteis japonesas como o boro e o sashiko. O tingimento natural com índigo e tanino de caqui é central. O livro de Leonard Koren popularizou o termo fora do Japão em 1994.

Gramática Visual

Silhueta

  • Proporções desestruturadas e relaxadas. Frequentemente sem gênero definido.
  • Casacos casulo. Camadas externas envolventes com volumes arredondados.
  • Calças de pernas largas com caimento natural. Comprimento curto ou barras irregulares.
  • Túnicas e camisas longas. Comprimentos variados. Uso de sobreposições.
  • Fechamentos transpassados. Elementos amarrados em vez de botões ou zíperes.
  • Formas guiadas pelo material. O caimento do têxtil determina a silhueta.
  • Ombros caídos. Construção de manga quimono.

Materiais

  • Linho cru ou com tingimento natural.
  • Cânhamo. O uso varia do histórico asa japonês ao tecido contemporâneo.
  • Algodão orgânico com tramas soltas. Estruturas de gaze.
  • Lã tecida à mão. Texturizada. Geralmente em cores naturais.
  • Seda bruta com sericina intacta. Textura fosca e com aspecto de papel.
  • Sakiori. Têxteis feitos de tiras de tecido reaproveitadas.
  • Patchwork estilo boro. Retalhos mistos de algodão e índigo.
  • Tecidos finalizados com kakishibu ou aizome.

Construção

  • Reparos visíveis com pontos sashiko. Uso de linha contrastante.
  • Remendos estilo boro em pontos de desgaste. Tecidos diferentes combinados.
  • Bordas desfiadas ou ourelas inacabadas.
  • Costuras expostas. Construção invertida.
  • Fechamentos assimétricos. Vistas de botões irregulares.
  • Pregas irregulares. Textura de superfície amassada ou franzida.
  • Elementos costurados à mão. Pontos visíveis em barras e golas.

Cores

  • Tons terrosos. Argila, ferrugem, umbra e cinza pedra. Carvão quente e musgo.
  • Índigo em todos os estágios. Do quase preto profundo ao azul pálido desbotado.
  • Marrons kakishibu. Variam entre o bronze alaranjado e a umbra avermelhada escura.
  • Cores naturais sem tingimento. Palha de linho e creme de algodão cru. Cinza de cânhamo não alvejado.
  • Pretos e marrons profundos dorozome. Resultam de processos de tingimento com lama.
  • Cores saturadas ou sintéticas são evitadas. A cor muda e desbota com o tempo.

Calçados

  • Sandálias de couro simples com curtimento vegetal. O material desenvolve pátina.
  • Alpercatas de lona ou algodão. Modelos slip-on.
  • Botas de couro minimalistas. Marcas de uso e desbotamento pelo sol são valorizadas.
  • Calçados artesanais ou feitos à mão. Costuras visíveis.

Lógica do Corpo

O estilo wabi-sabi trata o envelhecimento do corpo como uma característica positiva. As peças acomodam o corpo com volumes soltos. O drapeado acompanha o movimento. Não existe uma alfaiataria estruturada para fixar uma forma única. O corpo é sugerido sob o tecido. O conforto e a facilidade de movimento são as prioridades. A repetição e o reparo definem a relação entre corpo e roupa. A peça melhora após ser usada, lavada e remendada.

Exemplares

  • Leonard Koren, Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers1994O livro que introduziu o wabi-sabi como conceito estético para o público ocidental. Koren apresentou a ideia como alternativa ao modernismo ocidental. Ele criou o vocabulário adotado por críticos de design e moda.
  • Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo, estreia em Paris1981As primeiras coleções em Paris apresentaram roupas com barras irregulares. A construção era exposta. O drapeado era assimétrico. O choque inicial estabeleceu um espaço para a filosofia de design japonesa no sistema internacional.
  • Coleção boro de Tanaka ChuzaburoUma coleção etnográfica de têxteis boro da província de Aomori. Reunida ao longo de décadas. Documentou as tradições de reparo de comunidades agrícolas. Levou o boro para museus.
  • Sen no Rikyu e o wabi-chaSéculo XVIRikyu codificou a cerimônia do chá. Ele usava utensílios rústicos e salas pequenas. Estabeleceu a base estética que referencia toda a prática wabi-sabi posterior.
  • Issey Miyake, Pleats Please1993Miyake priorizou o tecido. O poliéster plissado a calor assumia forma própria. O material expressava sua própria natureza.

Linha do Tempo

  • Séculos XV e XVIA filosofia estética se desenvolveu na cultura do chá japonesa. Murata Juko simplificou a prática. Sen no Rikyu codificou a preferência por tigelas rústicas e simplicidade rural. Isso influenciou a cultura artística por séculos.
  • 1603-1868 (Período Edo)Tradições têxteis surgiram em populações rurais. O patchwork boro e o sashiko nasceram da necessidade material. Leis suntuárias reforçavam a hierarquia entre a seda aristocrática e o cânhamo camponês.
  • 1981Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo estreiam em Paris. Peças com barras irregulares e costuras expostas. A reação da imprensa variou entre confusão e hostilidade. As coleções abriram a moda internacional para o design japonês.
  • Anos 1990Leonard Koren publica sua obra fundamental. O conceito entra no vocabulário de design ocidental. Issey Miyake lança Pleats Please. O design focado no tecido ganha destaque.
  • Anos 2000 até o presenteDesigners independentes adotam princípios materiais do wabi-sabi. A marca KAPITAL ganha reconhecimento internacional com patchwork inspirado no boro. O movimento slow fashion compartilha os mesmos valores.

Marcas

  • KAPITAL (1984, Kojima, Okayama)
  • Yohji Yamamoto
  • Comme des Garcons (Rei Kawakubo)
  • Issey Miyake
  • Cosmic Wonder (Yukinori Maeda, 1997)
  • 45R
  • Visvim (Hiroki Nakamura, 2001)
  • Eileen Fisher
  • Elena Dawson
  • Jan-Jan Van Essche
  • Geoffrey B. Small
  • SASQUATCHfabrix
  • Arts & Science (Sonya Park)

Referências

  • Koren, Leonard. Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers. Stone Bridge Press, 1994.
  • Juniper, Andrew. Wabi Sabi: The Japanese Art of Impermanence. Tuttle Publishing, 2003.
  • Koide, Yukiko, e Kyoichi Tsuzuki. Boro: Rags and Tatters from the Far North of Japan. Aspect Corp, 2009.
  • Wada, Yoshiko Iwamoto, Mary Kellogg Rice, e Jane Barton. Shibori: The Inventive Art of Japanese Shaped Resist Dyeing. Kodansha International, 2012.
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