Lekondo:Ontologia de Estéticas de Moda

44 estéticas

Roupa é expressão sem explicação. Ela influencia como você é visto e como se vê. Padrões de gosto, humor, disciplina, excesso e restrição se repetem através do tempo e da cultura. Este é o nosso guia para tornar essa linguagem visível.

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Karasu

Definição

Karasu é uma estética pautada na curadoria de designers. O nome vem de karasu-zoku, a tribo dos corvos. A imprensa japonesa rotulou assim os seguidores de Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo nos anos 80. Eles se vestiam de preto da cabeça aos pés. A origem foi o choque da estreia de Yamamoto e Kawakubo em Paris. Eles apresentaram roupas amplas e sem gênero. Eram peças com barras desfiadas e cortes assimétricos. A imprensa ocidental viu um ataque ao glamour europeu. Alguns chamaram de Hiroshima chic. Em Tóquio, a tribo dos corvos criou a cultura DC. O foco era a roupa identificável pelo seu criador. Hoje essa prática se traduz no archive fashion. Trata-se de colecionar peças históricas de Margiela, Lang ou Rick Owens. O sinal de reconhecimento é a bota Tabi de fenda nos pés. Para quem está fora, o detalhe não significa nada. Para quem conhece, ele significa tudo. A paleta é restrita ao preto. A construção é a desconstrução. O ornamento é a própria referência técnica. A cor preta é uma exigência absoluta. Um look só pertence à estética se for inteiramente preto.

Gramática Visual

Silhueta

  • Volumes amplos e ombros caídos que escondem as linhas do corpo
  • Comprimentos longos como sobretudos, calças largas e saias
  • Fechamentos e barras assimétricas
  • Camadas de preto sobre preto com diferentes pesos de tecido
  • Sem gênero por definição

Materiais

  • Algodão lavado e amassado, gabardine de lã e caimento pesado
  • Tons de preto tingidos e desbotados que propositalmente não combinam
  • Entretelas visíveis, forros expostos e bordas cruas
  • Desgaste artesanal com furos e reparos feitos pelo próprio designer
  • Couro com pátina de uso em vez de brilho

Construção

  • Desconstrução como ato de design com costuras externas e forros à mostra
  • Pontos de costura irregulares ou deliberadamente inacabados
  • Alfaiataria retrabalhada e invertida com pences expostas
  • Pontos brancos aparentes usados como sinalização silenciosa da marca

Cores

  • Preto sobre preto em tons variados
  • Tons próximos ao preto como grafite, carvão e antracite
  • Toques raros de branco ou cru aparecem apenas em costuras ou bordas desfiadas. Nunca em uma peça inteira.
  • Nenhuma outra cor é permitida no visual.

Calçados

  • Botas Tabi em qualquer estado de conservação dentro de um look todo preto.
  • Modelos Ramones e Geobaskets de Rick Owens
  • Derbies de couro preto gastos e solas de combate
  • Calçados valorizados pelo desgaste e não pela aparência de novos

Lógica do Corpo

O corpo serve como suporte para a referência. Ele não é uma forma para exibição. O volume amplo oculta em vez de emoldurar. As roupas mantêm sua própria silhueta longe do corpo. Ler o look significa ler a peça e não a figura. O reconhecimento substitui a exposição como mecanismo de exibição. Nada mostra a pele. Um olhar treinado identifica a temporada de um casaco apenas pelas costuras. O aspecto de uniforme é deliberado. Vestir tons de preto desalinhados elimina a decisão diária de moda. Coloca quem veste dentro de uma linhagem de quarenta anos. O desgaste é mantido como evidência de uso. A tribo original preservava as barras desfiadas exatamente como os designers as cortavam.

Exemplares

  • Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo em Paris1981-1983As primeiras exibições dos designers introduziram roupas pretas amplas e sem gênero na capital do glamour. A reação da imprensa variou do espanto ao insulto Hiroshima chic. As coleções tornaram-se os documentos fundadores do preto intelectual. Yamamoto definiu o tom da estética: o preto é modesto e arrogante ao mesmo tempo.
  • A karasu-zoku1982-1990Os devotos de Tóquio que vestiam os designers da cabeça aos pés. Eles criaram a cultura DC. Transformaram o ato de vestir uma construção específica em uma identidade legível. Esse comportamento define a estética até hoje.
  • Martin Margiela1988-2009O designer belga transformou a desconstrução em uma linguagem completa. Mostrou forros expostos e roupas consertadas. Introduziu a bota Tabi em seu primeiro desfile. Sua recusa em ser fotografado inverteu a obsessão por logotipos. A marca era reconhecida apenas pela construção e pelos quatro pontos brancos.
  • Arquivo David Casavant2005-presenteCasavant começou a colecionar Raf Simons e Helmut Lang na adolescência. Ele construiu o acervo pessoal que estrelas do pop usam hoje em vídeos e turnês. A fama do arquivo transformou o colecionismo de catálogos antigos em uma prática visível com preços de mercado.
  • Grailed e os revendedores de arquivo2013-presenteA plataforma de revenda deu ao colecionismo de arquivo um mercado e um vocabulário próprio. O termo arquivo virou categoria. O grail virou a unidade de desejo. Esse ecossistema levou a estética para uma geração que conheceu as coleções dos anos 80 por imagens digitais.

Linha do Tempo

  • 1981-1983Yamamoto e Kawakubo estreiam em Paris com roupas pretas amplas baseadas em furos e assimetria. O preto deixou de ser luto para virar um argumento intelectual.
  • 1982-1990A tribo dos corvos prospera em Tóquio. O visual era antissocial comparado ao brilho da cultura kawaii. O rótulo sumiu no fim da década mas o comportamento de vestir sobreviveu.
  • 1988-1997Margiela abre sua maison em Paris e sistematiza a desconstrução. Helmut Lang e Raf Simons constroem o cânone que os colecionadores buscariam anos depois.
  • 2003-2013Rick Owens muda sua marca para Paris e herda a linhagem do caimento preto. SSENSE e Grailed constroem a infraestrutura para a circulação de catálogos antigos.
  • 2014-presenteO colecionismo de arquivo torna-se cultura visível. O Tabi da Margiela alcança fama no mainstream digital enquanto permanece um sinal de reconhecimento entre iniciados.

Referências

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